É impossível escapar da revolução do Blockchain

Pode ser que você não queira saber do assunto por agora mas saiba que isto vai em breve afetar sua vida.

Não precisa aceitar esta afirmação só porque estou dizendo. Dê um passo atrás e olhe para o passado. Nós já vimos isto acontecer. Várias vezes. Cada revolução cultural ou industrial começa da mesma forma: com piratas desafiando as regras sociais – e muitas vezes a lei – seja por um motivo, seja por um ideal. Para uma leitura interessante sobre o tema vale checar o livro: The Pirate’s Dilemma, de Matt Mason.

Nós já vimos isto acontecer quando a empresa Napster trouxe o compartilhamento de arquivos P2P massificando o acesso a músicas. A empresa foi finalmente forçada a fechar por conta de inúmeras ações judiciais mas acabou mudando a história da indústria fonográfica para sempre. Nós também vimos isto acontecer com o Uber, que lutou (e continua lutando) para ser legitimamente reconhecido em cada um dos países em que entra, em cada estado, em cada cidade, e no fim terminou por mudar a indústria do transporte que tinha mais um século atuando da mesma forma. O mesmo aconteceu com o Airbnb, que ainda hoje enfrenta diversas restrições, críticas e dificuldades, mas que conseguiu mudar a indústria hoteleira para sempre. Ou ainda o Netflix, que se reinventou para sobreviver, e no processo, vem revolucionando a TV e a indústria cinematográfica. Ou podemos voltar tão longe quanto no início do século passado e usar o exemplo de um pirata chamado William que desafiou as normas sociais e as leis de propriedade intelectual americanas ao fugir para a costa oeste dos Estados Unidos para continuar a usar equipamento cinematográfico sem respeitar direitos de patente que pertenciam a Thomas Edison. Naquele momento de início do século 20, em que o velho oeste ainda era realmente selvagem, William conseguiu prosperar e, juntamente com outros personagens importantes, conseguiu desenvolver a indústria do cinema americano como a conhecemos hoje. O sobrenome de William era Fox.

Estes piratas forçam o resto da sociedade a olhar o mundo sob a sua perspectiva ou a experimentar algo já conhecido de uma nova maneira. A reação inicial usualmente negativa é gradativamente substituída por uma resignada aceitação, e logo seguida por uma corrida para fazer parte do novo movimento antes que vire algo de uso corrente pela população.

Nós já estamos hoje neste segundo estágio com a tecnologia do blockchain.

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Vários países e muitas instituições financeiras já abraçaram abertamente o conceito do blockchain ou pelo menos tem um pequeno time de pessoas avaliando o seu potencial e acompanhando o mercado.

O paralelo mais fácil de desenhar é com a internet. Antes de se espalhar de maneira maciça, a Internet era somente um recurso interessante com o qual você podia fazer coisas como procurar uma informação ou achar algum amigo perdido de escola. Mas era só isto. No início dos anos 90, a internet era algo promissor, mas ninguém estava ainda certo de qual seria o seu impacto. É este o momento que estamos vivendo com o blockchain.

Nem é preciso dizer que o Bitcoin é a celebridade mais importante nesta revolução. O blockchain do Bitcoin foi o responsável por tirar o conceito do blockchain do mundo das idéias ultra tecnológicas para o conhecimento da população em geral. Entretanto, ninguém sabe por quanto tempo o Bitcoin sobreviverá. Alguns acreditam que o Bitcoin é simplesmente o primeiro a passar pela porta – e o primeiro a passar pela porta é sempre baleado…

A queda do Bitcoin pode parecer improvável neste momento, mas não vamos esquecer, nos tempos iniciais da internet, quão incrivelmente importantes eram Altavista (site de busca), MySpace (rede social), Netscape (browser), Yahoo (provedor de internet) e mais tarde o Napster (compartilhamento de arquivos P2P). Todos estes foram pioneiros e responsáveis por trazer o uso da internet para a sociedade como um todo, mas por uma razão ou por outra, já não estão mais no mercado. Por outro lado, a IBM, a Apple, a Microsoft e a Amazon ainda estão ativas.

No fim, é irrelevante se o Bitcoin vai continuar a prosperar. A contribuição mais importante trazida pelo Bitcoin – o conceito do blockchain – já está entendida e tem vida própria nesta altura.

O conceito do blockchain ainda é desconhecido para muitos – e provavelmente vai continuar a ser. Na realidade, ninguém precisa entender os detalhes e jargão sobre blockchain como “minerar moedas”, “double spending”, “problema dos generais bizantinos”, “proof of work” ou “proof of stake”. Como exemplo, a maioria das pessoas não sabe o que significa “hypertext transfer protocol” mesmo que seja um dos conceitos mais importantes da internet – as letras “http” que aparecem no início dos nomes de quase todos os sites no seu navegador.

Há hoje talvez muito esforço sendo feito na tentativa de explicar o que é o blockchain e o mesmo tentando entender seu funcionamento. Porém mais importante do que isto parece ser a discussão sobre quais são suas possíveis aplicações. As pessoas tendem a se sentir mais confortáveis em aceitar algo com exemplos do que com a explicação sobre o seu funcionamento.

Os usos possíveis do blockchain são diversos, vários dos quais estão atualmente já operacionais, enquanto outros estão em fase de testes. A principal característica buscada nos blockchains é a confiança da informação contida no blockchain, assim como o fato de que tal informação é praticamente imutável.

Estes aspectos conduzem a várias idéias relacionadas com a remoção de intermediários – e quando você pensa bem sobre o tema, temos intermediários em todo lugar. Como exemplos temos os cartórios de registro imobiliário, as instituições financeiras quando usadas para fazer pagamentos ou transferência de valores, as autoridades de emissão de documentos de identidade ou empresas de energia (entre produtores e consumidores).

Outro exemplo interessante do uso do blockchain é a ferramenta conhecida como smart contract (contrato inteligente), que é essencialmente uma maneira mais automatizada (e menos dependente das pessoas) para estabelecer ação/reação em uma transação, ou, em outras palavras, uma relação “se/então” que não vai depender de um terceiro independente que vá executar a segunda parte da sequencia. Por exemplo, um pagamento que depende de um evento futuro vai acontecer automaticamente quando da ocorrência deste evento, ao invés de depender de uma das partes primeiro reconhecer o evento e daí partir para as ações necessárias para processar o pagamento.

E tem ainda o sonho de trazer serviços bancários para aqueles que hoje não tem acesso a tais serviços. Existe hoje uma parcela muito relevante da população sem acesso a serviços bancários, por inúmeras razões. A promessa do blockchain como um meio para corrigir isto tem sido vastamente difundida, mas a tese ainda tem que se provar viável. Blockchains e provedores de serviços de blockchains tem custos associados aos mesmos e, para sobreviverem no mundo atual, vão tem que aderir aos mesmos critérios de KYC e AML (sigla americanas para “conheça o seu cliente” e “anti-lavagem de dinheiro”) aos quais os bancos estão obrigados. Esta combinação de custos e de critérios KYC/AML por si só vai, sem dúvida, constituir uma barreira para este sonhado fácil acesso para qualquer um aos serviços bancários conectados ao blockchain.

Isto é parte de um debate acalorado entre, de um lado, os pioneiros do blockchain (conhecidos como “cripto evangelistas”) e, do outro lado, o mercado tradicional. Estes pioneiros são, na sua maioria, tidos como “libertários”, que enxergam a beleza do blockchain no seu completo isolamento de qualquer regulamentação ou de governos, e que desprezam qualquer esforço de adoção mais acelerada do blockchain que aconteça através de regulamentação ou conexão com os sistemas existentes. O outro lado, o mercado já estabelecido, está ansioso para entrar na onda do blockchain, mas ainda tem preocupação com a falta de regulamentação e com a má reputação relacionada ao tema.

O mais provável é que o mercado formal prevaleça. Nesta altura, já existe muito investimento, interesse e esforço focado no sucesso do conceito do blockchain. Já não há volta. Ao mesmo tempo, governos em todos os países já estão ativamente trabalhando em regulamentação ou sendo forçados a fazer algo a respeito.

Hoje em dia, o problema de reputação ainda assombra as startups que lidam com criptomoedas. Aquele famoso artigo da revista Wired de 2011 trouxe o Bitcoin para os holofotes, mas ao mesmo tempo o associou para sempre com o Silk Road – na época o site que era usado para venda de tudo que fosse ilegal, desde drogas até armas não autorizadas. De lá para cá, o site do Silk Road foi tirado do ar, muitas pessoas hoje entendem que há muitos mais usos para as criptomoedas além de atividades ilegais e, além disso, até os criminosos estão se dando conta de que usar Bitcoin para suas atividades ilegais é uma má idéia porque o aspecto de anonimato relacionado a criptomoedas é bastante exagerado e tais indivíduos estão percebendo, a duras penas, que pagamentos de pedidos de resgate (ou para conter ameaças) em Bitcoin deixam muitos rastros e portanto são uma péssima idéia.

Empresas nos EUA relacionadas a criptomoedas estão enfrentando hoje um caminho similar aos negócios relacionados a maconha. Ambos são legais (dentro de certas circunstâncias, com algumas limitações, e, no caso da maconha, somente em alguns estados), mas enfrentam uma falta de confiança em geral e são vistos como negócios que operam numa zona cinzenta. Vários bancos se recusam a fazer negócios tanto com empresas relacionadas a maconha quanto com as relacionadas a criptomoedas, e certas vezes até fecham contas existentes sem muita explicação.

Mas estes obstáculos atuais são necessários. É no mínimo esperado que um conceito tão inovador quanto o do blockchain vá ter que enfrentar este rito de passagem. Especialmente considerando que uma das indústrias mais afetadas é uma das mais poderosas – o setor bancário. O setor vai no fim das contas aderir, se ajustar e se acomodar, mas vai ser nos seus próprios termos e no seu próprio tempo. E é fato conhecido que a infraestrutura do setor financeiro é uma das menos atualizadas na indústria. As vezes pode parecer, na parte exterior, que está mais modernizada, mas a espinha dorsal ainda continua tendo mais do que 50 anos.

Ninguém pode prever – ainda que muitos tentem – para onde esta revolução do blockchain vai nos levar ou mesmo qual será o preço do Bitcoin em 6 meses. Mas é de qualquer forma muito interessante ter a oportunidade de testemunhar os desdobramentos das diversas facetas deste conceito brilhante.

Fique de olho aberto.

 

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